• Julieta Jacob

Nem todo abusador é pedófilo

E por que é importante falar sobre isso? É muito comum usarmos a palavra "pedófilo" como sinônimo de "abusador sexual". Vemos isso o tempo todo na mídia, nas manchetes, nas notícias.


Acontece que pedofilia é um transtorno do desejo sexual, uma doença responsável por desenvolver desejos sexuais por crianças e adolescentes (especialmente pré-púberes). É, portanto, um diagnóstico clínico, não um crime. Já os atos decorrentes da pedofilia, como o estupro de vulnerável, por exemplo, sim, são crimes.

Mas, segundo pesquisas, apenas 10% dos casos de violência sexual contra crianças e adolescentes são cometidos por pessoas pedófilas. E os outros 90%? São cometidos por pessoas absolutamente funcionais que trabalham, têm vida social, amigos e muitas vezes estão acima de qualquer suspeita.


Abusam porque se acham donos (a maioria é homem) dos corpos das crianças (em especial se houver grau de parentesco) e também porque aprenderam que essa é uma via de exercício de controle e poder. Abusam porque conhecem o pacto social do silêncio sobre esse crime e têm certeza que não serão denunciados nem responsabilizados.


É importante, portanto, não reproduzir o discurso de que abusadores sexuais de crianças são pessoas "doentes". O enfrentando da violência sexual passa mais pela oferta de Educação Sexual para crianças e pela revisão do modelo hegemônico de masculinidade (tóxica) do que pela garantia de tratamentos terapêuticos para pedófilos.